quarta-feira, 26 de maio de 2010

Musin é citado nos anais do festival Penalva.



Musin é citado nos anais do festival Penalva. Mais no artigo:
http://www.elisabethprosser.pro.br/publicacoes/artigospublicados/007%20A%20pesquisa%20sobre%20a%20Musica%20no%20Parana.pdf

PROSSER, Elisabeth Seraphim. A pesquisa sobre a música no Paraná e o Festival
Penalva / Mostra da Música Paranaense. II FESTIVAL PENALVA / I MOSTRA DA MÚSICA
PARANAENSE (Curitiba, out. 2005). Anais: Música e músicos paranaenses: memória,
linguagens, produção, performance, ensino, crítica. Curitiba: ArtEMBAP, 2005. p.
119130.

MUSEU DO SOM INDEPENDENTE: RESGATE, PRESERVAÇÃO E VALORIZAÇÃO DA CULTURA LOCAL - Artigo de Karana Mara Izidoro Silva

ISSN 1809-2616

ANAIS
VI FÓRUM DE PESQUISA CIENTÍFICA EM ARTE

Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Curitiba, 2008-2009

MUSEU DO SOM INDEPENDENTE: RESGATE, PRESERVAÇÃO E
VALORIZAÇÃO DA CULTURA LOCAL


Karana Mara Izidoro Silva*

Resumo:
Neste artigo procurou-se analisar e englobar a relação entre memória e história; o
crescente interesse pela preservação da memória; a definição dos lugares e suportes da
memória e sua importância. Enfatiza-se também o papel das instituições-memória, e sua
importância para a preservação da memória coletiva. Este trabalho tentará traçar, por fim, o
debate maior no qual está inserido: a preservação de um patrimônio, com a criação de uma
instituição-memória, o Museu do Som Independente.
Palavras-chave:
Memória, Preservação, Acervos Históricos, Musica Paranaense, Musin.

MEMÓRIA, RESGATE E PRESERVAÇÃO

Recentemente, empresas, instituições e indivíduos preocupados em preservar
sua história vêm aderindo à nova tendência, conhecida como responsabilidade
histórica, ou seja, ações cujos objetivos são a preservação, a valorização e a
divulgação da memória resgatada. O interesse público pela “memória coletiva” tem
crescido exponencialmente. Nos últimos anos, a preservação e o resgate da
memória tem estado no centro dos debates acadêmicos no Brasil. Ele se expressa
de forma evidente em debates sobre “patrimônios culturais”.

Porém, esta constante busca pela preservação da memória coletiva não
ocorre somente em meios acadêmicos. Percebe-se um crescente interesse,
igualmente notório em comemorações de fatos históricos, no boom editorial de
biografias e livros memória, na construção de museus e centros de memória e
principalmente centros de memória virtuais. Para Márcia D’Aléssio, nesse período,

do senso comum às políticas públicas existe concordância sobre a
necessidade de preservação do passado. Mesmo os cultores do
‘novo’, os fiéis da religião do ‘moderno’, os militantes da mudança
permanente não ousariam pronunciar-se a favor da destruição dos
traços... Uma necessidade identitária parece estar compondo a

.
Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Especialização em Comunicação e Cultura,
Comunicação, Cultura e Ideologia da Música.


experiência coletiva dos homens e a identidade tem no passado o
seu lugar de construção1

O apelo que nossa sociedade faz de preservação de sua memória é, em
última instância, a necessidade de reconstituição de si mesma. A busca do passado
como forma de se reencontrar, por isso, preservar vestígios, fósseis, objetos,
documentos etc. Em busca do resgate e preservação do passado, espaços como
bibliotecas, arquivos, museus, centros de documentação e os centros de memória,
tornaram-se locais de guarda das memórias do homem, ou seja, da memória
coletiva, por meio de informações registradas em diferentes suportes.

Estas instituições-memória nos levam a pensar na própria definição de
memória e na importância que estas instituições, a partir dos documentos que detêm
e preservam, representam para o estudo e para produção histórica, pois são, com
constância, as principais fontes para os historiadores e demais pesquisadores.

Segundo a definição de dicionário2, a memória é a capacidade de reter,
recuperar, armazenar e evocar informações disponíveis, seja internamente, no
cérebro (memória humana), seja externamente, em dispositivos artificiais (memória
artificial). Já a memória coletiva3 é partilha, transmitida e também construída pelo
grupo ou sociedade. Ela se distingue da memória individual.

LUGARES E SUPORTES DA MEMÓRIA

Desde o surgimento da Escola de Annales, em 1929, a concepção de
documentos foi ampliada, deixando de referir-se somente a documentos oficiais.
Com a História Nova, os historiadores passaram a valorizar a pluralidade de fontes
documentais, procurando as informações não somente nas tão privilegiadas fontes
primárias dos arquivos históricos e oficiais.

A crítica à noção de documento pela Escola dos Annales possibilitou a
utilização de diversos documentos ou suportes de memória. A partir de então, se
ampliou o campo do documento histórico, fundamentado essencialmente nos textos,
para uma história baseada numa multiplicidade de documentos, como escritos de

1
D’ALÉSSIO, Márcia Mansor. Memória: leituras de M. Halbwachs e P. Nora. In: Revista Brasileira de
História, São Paulo, Marco Zero, ANPUH, v. 13, n. 25-26, p. 97-103, set. 1992 -ago. 1993. p. 97.
2
Língua Portuguesa On-line. Dicionário. Disponível em: . Acesso em: 5 jul. 2008.
3
Termo criado por Maurice Halbwachs, sociólogo francês da escola durkheimiana, e sua obra mais
célebre é o estudo do conceito de memória coletiva.


todos os tipos, documentos figurados, produtos de escavações arqueológicas,
depoimentos orais, estatísticas, fotografias, filmes, objetos tridimensionais, obras de
arte, entre outros, em diversos tipos de suportes, como metal, madeira, vidro etc. Enfim,
outros “suportes de memória”, que foram criados com o objetivo de perpetuar
eventos, homenagear personagens ou mesmo criticar ou enaltecer algum
acontecimento histórico. Todos esses “suportes de memória” são essenciais para
preencher as lacunas e os silêncios das fontes.

Com a ampliação da concepção de documento histórico, as instituições-
memória ou “lugares de memória”, passaram e dar mais importância e a se
apropriarem desses suportes. A expressão “lugares de memória” foi cunhada pelo
historiador Pierre Nora e por ele definida como “lugares que contribuam para o
estreitamento dos laços entre história, memória e experiência, permitindo a
articulação entre passado, presente e futuro”4.

Para Nora, os lugares de memória são espaços criados pelo individuo
contemporâneo diante da crise dos paradigmas modernos, isto é, arquivos, museus,
centros de documentação e os centros de memória, instituições criadas com um
objetivo semelhante, preservar a memória e a história para as gerações futuras.
Estes lugares da memória reúnem acervos a partir de uma linha temática.
Encontram-se atualmente museus e centros de memória em diversas temáticas e
diferentes áreas, como artes, artes sacras, arqueologia, história natural, etnografia,
fonografia, iconografia etc.

MUSIN: PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA MUSICAL PARANAENSE

Diante da perda iminente, vive-se uma ‘fome de

memória’ que se materializa, entre outros, na

constituição de museus, centros de memória, de

documentação e arquivo que possam preservar

experiência de um cotidiano em vias de extinção.

Zilda Kessel

De uns tempos para cá, a necessidade de guardar documentos pessoais,
objetos, fotografias etc., disseminou-se largamente. Pierre Nora considera que “a
memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto”. É
preciso criar arquivos, já que a memória na modernidade não é mais espontânea.

4
NORA, Pierre. Entre Memória e História: a problemática dos lugares. In: Projeto História, São Paulo,
PUC, n. 10, p. 7-28, dez. 1993.


A nossa sociedade tem consciência de que a informação e principalmente a
música, aqui tratada, são um tanto quanto efêmeras. A música assume cada dia
mais importância como meio de expressão em nossos dias e por esse motivo torna-
se um relevante patrimônio.

Tendo em vista a relevância em se preservar a memória coletiva, o
pesquisador Manoel de Souza Neto idealizou e criou, como diz Nora, um lugar de
memória. Trata-se de um importante acervo que resgata a história da música
paranaense, o Museu Independente do Som – MUSIN, cuja diretoria é composta
pelo seu idealizador e pelos pesquisadores Elisabeth Seraphim Prosser, Rodrigo
Duarte e Marilia Giller.

O Musin é um importante acervo em formação, que partiu do material
recolhido por Souza Neto nos últimos vinte anos. É a maior documentação do
gênero no estado e o primeiro do Brasil. O acervo abrange a música
independenteno Paraná. Segundo dados disponíveis, são 10 mil folhetos e cartazes
de eventos culturais, 1.500 discos de vinil (LPs e compactos), cassetes e cds de
músicos locais, mil publicações, como fanzines, livros e informativos, e mais de 3 mil
fotos relacionadas ao tema, gravações inéditas em fitas cassete, vídeo e DVDs e
outros documentos. Trata-se do principal acervo em número de registros
fonomecânicos sobre compositores da música paranaense e tem como principal
objetivo preservar o passado e valorizar a cultura local.


Foto Marcelo Dallegrave. Disponível em: .

A preservação de todo este material e a sua disponibilização apresentam
inúmeras possibilidades de pesquisa referentes à sociedade e cultura, como, por
exemplo:

· as influências culturais e sociais que a música exerce;

· seu desenvolvimento ao longo do tempo;
· a influência mútua entre a música e os demais movimentos culturais;
· os compositores que marcaram cada período ou gênero;

· os compositores ou músicos que impulsionaram o desenvolvimento de novas

formas, estilos e gêneros;

· os músicos, grupos e bandas que se destacaram no cenário local e até fora dele.

Enfim, uma gama de possibilidades de pesquisa, que só é possível após
justamente da criação de um lugar de memória.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O acesso à documentação histórica, preservada e disponibilizada no centro, traz
benefícios imediatos a quem dela usufrui, mas também resultados positivos em longo
prazo, pois se trata da valorização, da reconstituição e da partilha da memória coletiva.

Assim, a preservação da memória da música paranaense, afirma a grande
máxima de Nora, que não há memória na sociedade contemporânea, o que há são
tentativas de se acessar essa memória. Tentativa esta que, no caso do Museu
Independente do Som -Musin, se dá por meio de uma ação individual, atingindo o
coletivo. Mais que a necessidade de manutenção de um local de preservação, a
mobilização em torno deste material está diretamente ligada ao que Nora coloca
como apropriação dos lugares de memória pelos grupos sociais em sua constante
necessidade de reconstituição e busca de si mesmos.

REFERÊNCIAS

CARVALHAL, Juliana Pinto. Maurice Halbwachs e a questão da Memória.
Disponível em: . Acesso em: 5 jul. 2008.

D’ALÉSSIO, Márcia Mansor. Memória: leituras de M. Halbwachs e P. Nora. In:
Revista Brasileira de História, São Paulo, Marco Zero, ANPUH, v. 13, n. 25-26, p.
97-103, set. 1992 - ago. 1993.

Língua Portuguesa On-line. Dicionário. Disponível em: . Acesso
em: 5 jul. 2008.

MEDRONI, Melissa. Museu do Som Independente. Disponível em:
. Acesso em: 5 jul. 2008.


NORA, Pierre. Entre Memória e História: a problemática dos lugares. In: Projeto
História, São Paulo, PUC, n. 10, p. 7-28, dez. 1993.

Musin promove o mapeamento, a divulgação e o registro da memória da produção musical do estado do Paraná

Musin promove o mapeamento, a divulgação e o registro da memória da produção musical do estado, tendo com um dos objetivos a publicação do Catálogo da Música Paranaense.

(Detalhe do projeto do catálogo da Música Paranaense)
"Os interessados deverão encaminhar gravações. Serão aceitas gravações musicais em qualquer formato (vinil, cassete, CD, CD-R ou outros, desde que em mídia física), lançadas em qualquer tempo ou ainda inéditas, de artistas/ bandas/ autores/ intérpretes/ arranjadores nascidos ou radicados no estado do Paraná, amadores ou profissionais, atuantes, não atuantes ou falecidos, de todos os estilos e gêneros musicais. As doações devem ser feitas em envelope fechado, endereçadas ao Museu Independente, contendo endereço para contato, breve resumo da carreira do artista e informações complementares, tais como: artista, título, cidade de lançamento, gravadora, ano, tempo total, gêneros musicais relacionados, músicas, compositores, músicos, produção, técnicos, estúdio, design gráfico, foto e outras." Endereço para entrega de materiais: Musin – Museu Independente (Av. Luiz Xavier, 68 / Cj. 1.618 – Curitiba – PR / CEP 80020-020). Mais informações: e-mail: museuindependente@gmail.com / site: museuindependente.blogspot.com
(41)9604 3992

Musin esta sendo estudado como possível projeto de museu virtual.


Alunos de Web design da Opet desenvolvem projeto de museu virtual para o Museu Independente. O projeto inédito no Brasil esta em fase de estudos e pretende desenvolver não apenas um site do Musin, mas desde exposições, reserva tecnica e até a gestão institucional toda em plataforma na web.


Em breve mais noticias.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Musin no programa Plug da RPC.

13/12/2008
Memória da música

Materia "Pesquisadores estão montando um museu da música paranaense", Musin no Programa Plug da RPC TV, assita no link:

http://portal.rpc.com.br/tv/paranaense/video.phtml?Video_ID=35400&tipo=

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

''A (des)construção da música na cultura paranaense''



Livro ''A (des) construção da música na cultura paranaense'' é fruto da mesma articulação que resultou na fundação do Musin.











Segue artigo publicado em 2004: http://www.bonde.com.br/bonde.php?id_bonde=1-2--246-20040904

04/09/2004 -- 17h28
Livro faz resgate da música paranaense
Manoel de Souza Neto garimpou a produção musical do Estado e reuniu 80 artigos em livro de mais de 700 páginas



Durante 15 anos, o produtor cultural Manoel de Souza Neto percorreu os eventos musicais de Curitiba, reunindo material de grupos, bandas, duplas, pesquisadores e músicos que encontrava pela frente.

A peregrinação rendeu um dos maiores acervos sobre a música paranaense já reunidos, composto tanto por discos como por histórias peculiares do cenário musical da cidade e do Estado.

O resultado pode ser conferido no livro ''A (des) construção da música da cultura paranaense'', um catatau de mais de 700 páginas. No livro, a pesquisa do produtor serviu de base para organizar 80 artigos de 39 autores que traçam um panorama da música popular e erudita do Paraná.

É a primeira obra lançada no sentido de desvendar os aspectos dessa área da cultura paranaense. A obra foi dividida em cinco longos capítulos: ''Histórias e Memórias''; ''Diversidade Musical''; ''Preservação e Memória''; ''Educação Musical'' e ''Questões Políticas, Econômicas e Sociais''.

Não se trata, conforme ressalta o organizador, de um livro de história ou um almanaque, mas uma coletânea de textos que podem servir de base para o leitor realizar a sua própria conclusão sobre a cena musical do Estado e seus diversos gêneros.

A idéia de organizar a coletânea surgiu há 10 anos, quando amigos de Manoel Neto chamaram a atenção do produtor para a quantidade de acervo que ele já tinha catalogado ao longo dos anos.

O produtor, no entanto, decidiu reunir outras pesquisas que estavam sendo feitas sobre a música na tentativa de lançar um material ainda mais completo. ''O livro serve como pano de fundo para a história e a crítica da música paranaense'', analisa.

Para o produtor, as diferentes visões abordadas no livro fazem com que a obra vá se construindo e descontruindo ao longo das páginas. E foi exatamente esse o critério o das visões diversas que levou Manoel Neto a escolher os autores, além de uma pesquisa abrangente e criteriosa desenvolvida por cada um deles.

O livro traz a história da música no Estado desde 1600, até os dias atuais e mostra, segundo ressalta o organizador, que o cenário musical atual não passa de um reflexo da movimentação em torno do tema ao longo desses anos.

A proibição do fandango ritmo típico do litoral paranaense pelas elites, por exemplo, mostra como o preconceito e as próprias questões econômicas podem abafar a proliferação dos gêneros.

O desaparecimento de mais de 200 títulos de duplas sertanejas do Estado também é abordado no livro como uma questão a ser avaliada e recuperada.

''A (des) construção da música na cultura paranaense'' traz apresentação de Luiz Carlos Prestes Filho, herdeiro do militante Luiz Carlos Prestes. Ele é coordenador do Núcleo de Estudos de Economia da Cultura, na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e na contracapa do livro fala sobre a música como fator de desenvolvimento.

A abordagem de Prestes ressalta como a pesquisa organizada por Manoel Neto pode ser de relevância cultural não apenas limitada ao Paraná, mas com abrangência em outros estados. ''Nossa intenção é de que o livro chegue a outras regiões, também'', salienta o organizador.

A primeira edição do livro, que tem lançamento em eventos durante todo o mês de setembro, é de 3 mil exemplares. A obra não chega sob a batuta de nenhuma lei de incentivo. É uma organização independente e pode ser encontrada nas livrarias Curitiba, Saraiva, Fnac e em bares da cidade por R$ 48,00. Pedidos podem ser feitos no Umbigo Espaço Cultural (espaço.umbigo@uol.com.br), quando a obra sai por R$ 35,00.

Datas de lançamento:

- 14 de setembro, terça-feira, na Fnac Curitiba, Rua Prof. Viriato Parigot de Souza, 600 (Park Shop Barigui), bate-papo com os autores no Frans Café às 19 horas

- 23 de setembro, quinta-feira, na Biblioteca Pública do Paraná, Rua Cândido Lopes, 133 - Centro, lançamento no saguão térreo, às 19 horas

Confira os autores que integram a coletânea ''A (des) construção da música na cultura paranaense'':

Aimoré Índio do Brasil Arantes

André Alves

Aramis Millarch

Arthur Carlos Mohr

Bernadete Zagonel

Carla Umbria Lemos

Carlos Borges Lima

Cremildes Ferreira Bahr

Daniella Gramani

Deborah Fuks

Edivino dos Santos Filho

Elisabeth Seraphin Prosser

Gilberto Baroni

Glerm Soares

Guilherme Romanelli

Inami Custódio Pinto

Janaina Monteiro

Jocely Tomio Arantes

José de Melo

José Luiz de Carvalho

Lai Bottmann Pereira

Lia Marchi

Liana Marisa Justus

Luís Gustavo Slomp

Magnus Pereira

Manoel de Souza Neto

Marcello Polinari

Marcelo Sandman

Marcilene de Souza

Marcio José dos Santos

Mari Lopes

Mário Deina

Rodrigo Juste Duarte

Rogério Budasz

Roselys Velloso Roderjan

Sérgio Albach

Sérgio Deslandes

Telma Regina Gomes

Thaís Morell

Museus - Guerras Culturais.

Opinião - 1968 e a morte dos museus

Mário Chagas

MUSEÓLOGO, PROFESSOR DA UNIRIO E COORDENADOR TÉCNICO DO DEMU/IPHAN

Viktor Chagas

ESCRITOR E JORNALISTA

O ano de 1968 pode ser considerado o mergulho numa viagem ou a partida para uma odisséia ainda não acabada. Se em maio de 1968, estudantes saíam às ruas na França, em junho, no Brasil, 100 mil pessoas ocupavam o Centro do Rio, num dos, até então, mais importantes protestos contra a ditadura militar.

Estudantes, professores, operários, artistas, intelectuais, religiosos, trabalhadores de diferentes ofícios, filhos, mães e pais estavam lá na passeata dos 100 mil, lutando pela democracia e pela solidariedade; sonhando um mundo livre dos autoritarismos, das ditaduras, das censuras, dos conservadorismos.

Na histórica passeata de 26 de junho de 1968, que merece ser celebrada – ao contrário do que sugerem alguns colunistas – estavam Oscar Niemeyer, Carlos Scliar, Chico Buarque de Holanda, Ernandes Fernandes, Elayne Fonseca, Ziraldo, Clarice Lispector, Fernando Gabeira, Milton Nascimento, Gilberto Gil e tantos outros. Naquele dia, Gilberto Gil comemorava 26 anos de idade e saboreava o lançamento do disco Gilberto Gil e a preparação do lançamento para julho daquele mesmo ano do Panis et circences, marco fundamental da tropicália.

Com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, Glauber Rocha, criador desse famoso bordão do cinema brasileiro, assistiu às manifestações populares. Com o material filmado, deixou inacabado o curta 1968. No mesmo ano, Glauber viria a finalizar o O dragão da maldade contra o santo guerreiro, que mistura antropofagicamente cordel e ópera, e de forma alegórica fala sobre o folclore nordestino e o heroísmo do cangaço ante o coronelismo.

Setores da vanguarda cultural do Ocidente, no final dos anos 60 e início dos anos 70, anunciaram a morte ou o desaparecimento próximo dos museus. Em agosto de 1971, como informou Hugues de Varine, durante a IX Conferência Geral do Conselho Internacional de Museus, realizada em Paris, Dijon e Grenoble, o beninense Stanislas Adotévi e o mexicano Mario Vásquez proclamavam abertamente: a "revolução do museu será radical, ou o museu desaparecerá".

O necrológio do museu, traduzido a partir de um desejo político, aparecia acompanhado de um discurso que colocava em movimento críticas severas ao caráter aristocrático, autoritário, acrítico, conservador e inibidor dessas instituições, consideradas como espécie em extinção e, por isso mesmo, apelidadas de "dinossauros" e de "elefantes brancos". No entanto, 20, 30 ou 40 anos depois, verificou-se que os museus não só não morreram, como se proliferaram e ganharam destaque na vida do mundo contemporâneo.

Mas as críticas dirigidas ao caráter dinossáurico de algumas instituições museais surtiram efeito e parecem ter estimulado os ventos reformistas que, nas décadas de 1980 e 1990, passaram por algumas delas. A modernização trouxe maior preocupação com os serviços destinados ao público e maior atenção para as práticas pedagógicas, além do aprimoramento dos recursos expográficos e do refinamento dos procedimentos técnico-científicos nas áreas de preservação, restauração e documentação museográfica.

Num mundo que passou a adotar o espetáculo como medida de todas as coisas, o próprio caráter dinossáurico foi transformado em elemento espetacular. Como um corolário da cultura espetacular absorvida e desenvolvida pelos museus clássicos consagraram-se as chamadas megaexposições, algumas tratando de artes, outras de tesouros históricos e outras ainda de ciências e de dinossauros, todas sempre espetaculares. Os ventos reformistas, no entanto, não pretendiam abolir e não aboliram os acentos autoritário, aristocrático, colonialista e imperialista de muitas dessas instituições. O que se pretendia evitar é que um museu como o Louvre, considerado como "protótipo do almoxarifado de um patrimônio burguês", fosse incendiado, como simbólica e ironicamente preconizavam os representantes da geração de 1968.

A sugestão que fica é a de que o diagnóstico da morte ou do desaparecimento próximo dos museus – considerados como lugares consagrados pela tradição cultural da burguesia ocidental – deve ser lido como parte dos movimentos político-sociais de crítica e contestação que, nas décadas de 1960 e 1970, atingiram diversos valores institucionalizados. Se tais críticas parecem ter contribuído para a invenção de um novo futuro para os museus tradicionais, por outro, parecem ter colocado em movimento o desejo de uma nova imaginação museal.

A toda ação libertária corresponde uma repressora; a toda contracultura corresponde uma cultura. E assim 1968 ficou marcado.

A viagem de 1968 não terminou; suas utopias libertárias, suas forças transformadoras continuam em movimento, fertilizando novos processos transformadores. Por tudo isso, vale comemorar os 40 anos do extraordinário ano de 1968 e a transformação do universo museal.

22 de julho de 2008 : 01h00m

http://jbonline.terra.com.br/editorias/textosdoimpresso/jornal/pais/2008/09/22/pais20080922008.html